Os bastidores do design do Nissan Ariya Concept

YOKOHAMA, Japão (28/02/2020) – Giovanny Arroba é diretor de design de programas da Nissan e o responsável pela criação do Ariya Concept, revelado recentemente. O crossover elétrico personifica a visão Nissan Intelligent Mobility para a mobilidade pessoal, por meio da qual a eletrificação e a inteligência veicular oferecerão experiências de condução adaptativas e ininterruptas, livres de acidentes e emissões nocivas. Com dois motores elétricos, aceleração potente e tecnologia premiada de assistência à condução, o Ariya Concept também é uma reinvenção total do design da Nissan.

Durante uma entrevista no Café Z, que mais parece um moderno oásis seguindo o tema do esportivo Nissan Z dentro do Centro Mundial de Design da Nissan, Arroba falou sobre como o Ariya Concept ganhou vida e como a Nissan agora faz parte de seu DNA, detalhando o processo de transformar seus sonhos em realidade.

P: Por que você seguiu uma carreira de design na Nissan?
Arroba: Depois que concluí minha graduação na faculdade ArtCenter College of Design, em 2000, tive a sorte de conhecer o oásis de design da Nissan em San Diego. Naquela época, aquele era o local ideal para um designer criar algo novo, sem a bagagem pesada de uma fórmula existente. Desde então, tive a oportunidade de influenciar e formar a linguagem da marca. Agora, a Nissan faz parte de mim e eu faço parte da Nissan. Acredito que este é apenas o aquecimento para o futuro que estamos desenhando para a empresa.

P: Qual foi sua estratégia inicial ao criar o Ariya Concept?
Arroba: Comecei pela nossa visão de como desenhar o futuro. Eu queria fazer uma fusão da forma com a experiência única de um veículo elétrico, e a tecnologia conectada e autônoma que a Nissan Intelligent Mobility representa. A capacidade de atração do automóvel como um objeto dinâmico que pode ser conduzido é essencial para o conceito.

P: Em outubro passado, você estava presente durante a revelação do Nissan Ariya Concept no Salão do Automóvel de Tóquio. Que sensação você teve quando viu sua criação mais recente fazendo sua estreia mundial?
Arroba: O slogan de abertura da coletiva de imprensa, “Bem-Vindo ao Futuro da Nissan”, causou uma grande impressão em mim e eu senti que ele havia tido um impacto eletrizante no público. O Ariya Concept é a primeira imagem, a primeira janela para a tecnologia que a Nissan vai personificar. Estou extremamente orgulhoso e feliz e sinto que acertamos no design e no estilo do modelo.

P: Imagine que o Ariya Concept é um carro de produção em série. Onde você gostaria de dirigi-lo em primeiro lugar?
Arroba: Eu cresci no Sul da Califórnia, por isso seria bacana dirigi-lo na PCH (Pacific Coast Highway), partindo de Santa Bárbara, passando pela região conhecida como Big Sur, as cidades de Carmel e Monterrey. Trilhar a Costa Oeste tendo o Oceano Pacífico ao meu lado proporcionaria uma sensação surreal. Durante um período maior de férias, viajar entre a Espanha e Portugal ou pela costa oeste da Escócia e a Ilha de Skye estão no topo da minha lista.

P: Que músicas ou álbuns formariam a trilha sonora da sua viagem?
Arroba: Gosto tanto de música quanto sou apaixonado por carros. Tudo depende do meu estado de espírito. Todos os gêneros têm um lugar em minha inspiração, mas, neste momento, acho que estou mais propenso a ouvir música instrumental eletrônica. Então eu colocaria o álbum “Kiasmos”, da dupla Kiasmos. Talvez eu também coloque “Street Fighter Mas”, de Kamasi Washington, e o álbum “The Scenic Route” de Brock Berrigan fica bacana para uma viagem de carro no Ariya Concept. Como sou meio retrô, “It’s Good to be Alive” de D.J. Rogers sempre tem um lugar na minha playlist.

P: Quantas pessoas estiveram envolvidas no projeto de dar vida ao Ariya Concept?
Arroba: O trabalho envolveu vários departamentos, desde o Design e a Engenharia até Planejamento de Produto e Marketing. Todos nós trabalhamos de forma bem próxima, compartilhando a visão de futuro da nossa marca. Sem contar os inúmeros artesãos que construíram e planejaram o conceito, passando de uma ideia a uma realidade física.

Acho que as pessoas não se dão conta de quantos designers são necessários ou a variedade de expertises necessárias para criar um carro. Existe uma série complexidades porque não é um produto estático, mas faz parte integrante da vida do proprietário. Precisamos garantir que daremos a ele uma personalidade que expresse sua função e proporcione uma experiência duradoura em geral.

P: E por falar na equipe de design, como a experiência e a cultura de cada um se funde no processo de criação?
Arroba: A equipe de design é formada por pessoas de todo o mundo, funcionando como uma orquestra e, às vezes, como uma banda em uma sessão de jazz. Cada um de nós toca instrumentos diferentes e traz para a “música” sua própria intimidade em termos de inspiração e paixão artística. Juntos, desenvolvemos e combinamos nossas várias camadas de notas, para compor nossa sinfonia. Da mesma forma, o Ariya Concept é um trabalho global. Ter uma equipe global permite enriquecer nosso conceito, com uma visão compartilhada da marca que é como música para os ouvidos.

P: Você faz pesquisas em outras áreas, além do setor automotivo e de transportes? Como o futuro da moda? Arquitetura? Brinquedos? Alimentos? Alguma inspiração de alguma fonte não convencional que se destaca?
Arroba: Sim! Todas que você mencionou, assim como música e filmes – tanto em termos de conteúdo como na forma como são criados e dirigidos. Criar um carro é como criar uma sinfonia visual, assim como criar um cenário para a jornada do cliente.

P: Quando era mais jovem, você já se interessava especificamente pelo design automotivo?
Arroba: Na verdade, quando era bem jovem eu queria ser arquiteto, e eu ainda adoro arquitetura. Dizem que “o espaço é o sopro da arte”. Filmes e animações também são formas de arte que sempre me fizeram – e ainda fazem – sonhar. Eles têm uma influência orgânica em meu processo de design.

P: Quando era criança, você teve um carro favorito, real ou ficcional, só por causa do design?
Arroba: Essa é bem difícil! Eu tive e ainda tenho vários carros que me inspiram. Os carros e conceitos italianos dos anos 60 e 70 estão em outro patamar. Carros como o Lancia Stratos Zero 1970, o Maserati Boomerang 1972 ou o sensual Alfa Romeo Stradale 1968 e o Disco Volante 1952.

P: Temos visto algumas montadoras desenvolvendo conceitos para filmes específicos. Para qual filme você gostaria de criar um carro?
Arroba: Adoraria criar um carro para o James Bond, ou algo que pudesse transitar no mundo de Blade Runner.

P: Existe alguma característica atual que é exclusiva do “Gio” nos veículos nos quais trabalhou?
Arroba: Gosto do equilíbrio. Isso é fundamental ao criar identidades de modelos feitos para o cliente-alvo. O equilíbrio de um gesto elegante com o fluir de uma superfície que contorna suavemente o exterior e no interior, em torno do motorista e do passageiro. É isso o que eu busco, algo que espero possa ser visto, seja no Infiniti Essence Concept, no IMs concept, no Maxima de produção em série e, é claro, no Ariya Concept.

P: Você inicia a sua criação com papel e caneta. Como você associa uma abordagem analógica com tecnologias de ponta, como a realidade virtual que você usa para falar com designers de todo o mundo?
Arroba: Para mim, quando estou concebendo e visualizando novas ideias ou conceitos, um bloco de croquis e uma caneta são sempre a forma mais simples de registrar e comunicar ideias. Desenhar no papel ou de forma digital é a linguagem que utilizamos como primeiro passo para esboçar nossas ideias. Depois que entramos em um acordo sobre a direção, podemos esculpir um protótipo em argila ou criar um protótipo digital, ou ambos. Depois, eles podem ser usados para confirmar nossas ideias por meio de realidade virtual, antes de criar um modelo físico em tamanho real. A realidade virtual é uma parte importante do processo, pois permite confirmar uma realidade que ainda não existe em um curto espaço de tempo.

P: Que outras ferramentas são essenciais no seu processo?
Arroba: Primeiro, mantemos a mente aberta, para imaginar e inventar. Além dos sketches e da realidade virtual, os protótipos de argila permitem obter diferentes níveis de sutileza em termos de forma e modelagem. Também valorizo este nível de exploração tanto no ambiente digital como em argila. As animações e filmes que produzimos a partir de nossos dados de design nos ajudam a capturar e comunicar a experiência que estamos tentando criar.

P: Que técnica é mais difícil de dominar pelos artistas de design automotivo?
Arroba: Na verdade, acho que é separar o desenho (ilustração) do verdadeiro objeto físico “real” que estamos tentando criar. Os designers tendem a se envolver e se apaixonar pelo esboço ou representação e têm dificuldade de transformá-la em realidade. O esboço é apenas uma forma que permite transformar as equações matemáticas românticas que sonhamos em realidade. Desenhar faz parte do nosso vocabulário, mas não é a palavra final.

P: Que conselho você daria a alguém que deseja seguir a carreira de design automotivo?
Arroba: Desenhar feito um louco. Desenhar, desenhar, desenhar. Desenhar para ser proficiente na linguagem do design. É necessário ter profundos conhecimentos em desenho para chegar à sinfonia do design. Visualizar e absorver a história dos carros e por que eles têm esta ou aquela aparência. Pesquisar tendências em veículos, visitar salões do automóvel e obter informações sobre como os carros são fabricados. Para entender a consciência coletiva do passado e do presente, ter condições de dar o próximo passo futuro ou fazer uma ruptura total.